segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Cuidado: naufrágio (crônica)

Sou uma pessoa bem comum. Mantenho certas rotinas. Minha cabeça demora a acordar. Se não tomo café com leite pela manhã, não sou gente. Era justamente isso que fazia, preparava meu café da manhã. Nós, humanos, costumamos pensar enquanto fazemos coisas triviais. Pensava justamente que vivemos uma época em que não se pode reclamar de nada, a época do conformismo. Na verdade, pensava inconformada, a falta de espaço para se conversar sobre isso é que tem gerado muita confusão. Semanas antes da eleição (que foi ontem), eu me questionava se valia a pena publicar um texto que falasse de política, engajado.

Após o café, outra rotina da manhã, ir ao computador checar e-mails. Eu sempre me pergunto se vale a penas checar isso todas as manhãs, pois, afinal, pouquíssimas das mensagens que recebo são escritas para mim, a maioria delas são encaminhadas, muitas são propagandas ou convites para eventos. Um e-mail encaminhado por uma amiga trazia o seguinte título: "O melhor e-mail do mundo". Confesso que não costumo ler esse tipo de mensagem, classificada por mim como de auto-ajuda. Mas a minha reflexão da manhã era justamente se deveríamos nos conformar com tudo, com o governo, com o salário. Se nos conformarmos com tudo, tudo ficará exatamente do jeito que está? Não, se nos conformarmos com tudo, ficará pior, infelizmente.

Não devo reclamar de nada nem lutar por nada melhor, segundo o texto bilíngüe com imagens, que dizia mais ou menos o seguinte: se você não está contente com o transporte coletivo de sua cidade, veja este (então, a imagem mostrava pessoas de outra cultura caminhando sobre uma ponte de cordas); se você acha que a vida não está boa para você, então veja a vida deste guri (a imagem mostrava um menino carregando um homem numa espécie de carrinho de mão). Sem dúvida, "O melhor e-mail do mundo" tinha imagens impressionantes, quase me convenceu. Na verdade, nunca soube precisar qual vida é melhor, se a minha ou a de um africano, se a minha ou a de um menino que carrega outro homem numa espécie de carrinho de mão, se a minha ou a de uma mulher que aos cem anos carrega gravetos nas costas e por isso anda curvada. Como saberia?

Tenho outro nome para mensagens assim: auto-engano. Cada cultura tem sua história. E, claro, a mensagem foi desenvolvida no Ocidente e mostra, em sua maioria, imagens do Oriente. Quem conhece um pouco de história, sabe muito bem por que há tanta pobreza lá e riqueza cá. A discrepância não é maior porque nem todo mundo se acomodou por lá, aliás, todos sempre lutaram, muitos, inclusive, morreram lutando. O texto também não respeita nem um pouco as diferenças culturais, afinal, os norte-americanos não preservaram sua cultura, pois não a tinham, não nasceram naquelas terras, vieram de outras e praticamente exterminaram os que lá moravam quando da colonização. Além disso, não vejo nenhuma abordagem ecológica ou social no texto, apenas conformismo: aceite a vida que você tem sem reclamar, sem lutar, sem poder sequer desejar outra coisa.

Isso pra mim não serve. Eu quero sim uma vida melhor, um planeta melhor, conviver com pessoas que sonham um mundo melhor e não se conformam com tudo e deixam o mundo naufragar.
In: jornal A Notícia, Anexo, p. 3

2 comentários:

Lisette disse...

Gostei do seu olhar sobre se devemos ou nao ficar parados vendo td acontecer E conformar?? precisamos ,sim lutar para um mundo mais igual onde nao haja mais cenas como as citadas nesse email.Como ? talvez assim, comentando, usando essa ferramenta que temos, a palavra. Que muda, transforma. Parabéns! e obrigada por provocar em mim a vontade de mudar, e lutar.

regina disse...

Sim, suzana.
Acho que ser poeta já é não ser conformista, não se adequar aos valores habituais.
Beleza de crônica!
bj