segunda-feira, 15 de setembro de 2008

A culpa é do marceneiro (crônica)

Telefono pra amiga no meio da tarde. Um homem atende:
- Alô! (voz grossa e bonita)
Fico sem saber o que dizer, pois a minha amiga mora sozinha. Um sorriso faceiro se forma em meus lábios, enquanto pergunto:
- Quem fala?
Era pra ter perguntado outra coisa. Deveria perguntar pela pessoa que procurava, por exemplo:
- A Flávia se encontra?
Ou:
- Poderia falar com a Flávia?
Ou, de forma mais vaga:
- É aí que mora a Flávia?
Mais técnica:
- Liguei pra qual número?
Ele, bastante objetivo:
- A dona Flávia saiu. Sou o marceneiro.
O risinho cínico continuou nos meus lábios.
Ele: - Ela volta logo.
- Tudo bem.
- Quer deixar recado? Pergunta atencioso com aquela voz de barítono.
- Não, obrigada, ligo mais tarde.

A nítida, fantasiosa e falsa impressão de que ao telefonar interrompi alguma coisa, qualquer coisa que não fosse um trabalho de carpintaria sobre uma superfície de madeira. Qualquer coisa que fosse um trabalho de carpintaria sobre uma superfície macia, deslizante.

Mais tarde, Flávia me ligou. Ela não estava com cara de quem estivera ajudando na marcenaria.

Acho que a Flávia é como eu, não suporta a presença de estranhos na casa. Vai logo saindo. Prefere deixar a casa sob os cuidados atenciosos de um marceneiro, encanador, técnico de parabólica, de computador, mesmo que durante essa ausência ele fuce nossas gavetas, armários... Como iríamos saber?

Pior seria se ele fuçasse nossas mãos, braços, olhos, pensamentos, fazendo com que nosso equilíbrio ficasse por um fio ao percebermos as botas sujas, os farelos de madeira caindo sobre o piso recém limpo ou, então, tendo de ouvir comentários do tipo: "Tá na hora de trocar isso, dona", ou: "Quem foi que consertou isso antes? Fez tudo errado!"

O marceneiro poderia não ter atendido ao telefone. Ora, se a dona da casa não estava, pra que atender? A culpa é dele e não minha. Não teria imaginado e a Flávia não ficaria tão inflamada (zangada) comigo. Ora bolas!

4 comentários:

regina disse...

Ora, que abusadinha que és...
A Flávia não ficou zangada contigo. Me disse que achou muito engraçado ficares pensando bobagem, hehehe...
ah, quem me dera, acrescentou, ter um marceneiro tão gentil que estendesse seus trabalhos pras outras superfícies...
bj

Girl disse...

Oi,

Descobri teu blog meio por acaso e estou adorando.
A crônica do marceneiro é ótima, mas não se culpe.
Se fosse eu também entenderia errado...
;)

Beijinhos,

Girl

Rubens da Cunha disse...

hehe
gostei bastante.
ri aqui da situação, ~tão comum e ao mesmo tempo inusitada
beijso

CeciLia disse...

adorável e deliciosa crônica, moça. Adorei estar aqui.
Beijo n'alma