segunda-feira, 7 de abril de 2008

Vento e pedra

Vento é quando distraidamente canto. Pedra é quando retorno ao texto escrito no momento vento.

O vento é leve, os dedos deslizam no teclado tentando dar conta da euforia que urge. O vento é grávido de urgências, coisas precisam ser ditas, importâncias catadas por onde o vento passou são trazidas para o formato palavra, nuances, quem sabe um olhar de formiga, justamente daquela que caminhava por sobre o muro de pedras frias, levando nas costas a beleza da última flor.

A pedra é fria, meticulosa, cortante. Uma pedrada machuca, duas derrubam. Quem não tem pecados, atire a primeira pedra. Eu não atiro, eu tiro. Tiro leite de pedras. E sai tão pouco. É raro. Por outro lado, é precioso sentir o gosto do esforço, o resultado do trabalho. Muitas vezes o gosto é leite amargo. O amargo gosto da imperfeição. Os textos são largados pela margem do caminho, pedras que se acumulam, ou botões de flor para mais tarde, para um momento ainda incompreensível para estes olhos de pedra.

Nasci num dia de vento. Cresci num mundo de pedras. O vento circula bem entre as pedras, vento escultor. Vento e pedra, um e outro me fascinam. No vento, as roupas balançam, voam. Na pedra, lhe são tirados o acúmulo, o encardido. Estados de espírito. Não sei qual deles virá amanhã. Apenas sinto. Quando é o vento que bate, não tem jeito, não é dia de consertos e revisões, é dia de novidades, criação, invenção. Vento e pedra. Ambos se complementam. Um aprimora o outro.

Impossível falar pedra sem pensar em palavra, impossível ver folhas ao vento e não lembrar de Clarice Lispector, do milagre das folhas de uma crônica, o milagre da natureza na beleza de uma pedra, o milagre da arte na beleza de um poema, quando folhas levadas ao vento, poemas da natureza. Vento e pedra, um para se soltar, outro para aterrissar. Um para desbravar, outro para estabelecer. Um para inventar, outro para cultivar.

O vento é ondulante, um barco em balanço suave sobre as águas, a margarida tremulando no jardim, as folhas do pessegueiro mexendo-se feito sinos, os cabelos todos de um lado durante a caminhada na praia e a vontade de correr, furar onda, rodopiar, isso tudo é vento. O vento é invento.

A pedra é onde sento para olhar o mar, medir o tamanho das ondas, medir-me pequena diante do universo, conter-me, catar conchas, selecionar, encher o olhar de precisão ao ver a sombra da gaivota desenhar-se vôo sobre o mar, uma sombra na sobra do vento.

Uma pessoa não pode ser apenas vento. Uma pessoa também precisa ser pedra. Precisa mergulhar dentro da pedra e descobrir seus mistérios. Até o dia em que a vida seja apenas vento, pó, céu, estrelas.

5 comentários:

Anônimo disse...

Gostei muito do texto.
Praticamente um poema...
Um abraço Carolina =)

Í.ta** disse...

maravilhosa analogia, Suzana.

escrever ficou ainda mais gostoso e desafiador depois de ler este texto.

parabéns!

vemo-nos..
abraços,
Í.ta**

Raquel Marmentini disse...

Olá Suzana...
eu de novo. Estou fazendo um curso mídias na escola. Surgiu o mesmo questionamento seu. O que será do livro? Entrei no seu blog e vi este texto lindoooooooo.
Compartilho o seu pensamento.

Raquel Marmentini disse...

O mais importante não escrevi...
Uso em uma atividade, a sua preocupação de bibliotecária com relação ao destino do livro.
um abraço

Adri.n disse...

Nossa!
Quando crescer quero ser como você!
Adorei o Blog e me apaixonei por esse texto.
Precisamos sem vento e pedra, falou diretamente ao meu coração.
Sem palavras...