sábado, 21 de fevereiro de 2009

A última

Cá estou. De olhos embaçados tentando escrever a última.

A mesa é branca, uma dessas de sala de jantar adaptada para o escritório. Faz calor, ouço Milton Nascimento. À minha frente um cartaz do Prêmio Cruz e Sousa, espécie de incentivo. Mais ao lado, um pequeno quadro de Nossa Senhora da Pena, protetora das artes. Sobre a mesa, dicionário de português, de inglês, cds, clipes, grampeador, um copo com suco de goiaba, uma pulseira tirada do pulso (não consigo trabalhar com pulseira).

Deste espaço saíram as crônicas que escrevo como colaboradora do Anexo desde maio de 2006. Logo encontrei meu jeito de escrever. A crônica é um gênero literário que pode ser tudo e ao mesmo tempo nada. As fórmulas são muitas. Como agradar aos leitores, ao jornal e ao mesmo tempo não desagradar a si mesmo? Optei por não desagradar a mim mesma

À minha direita a janela. Mais além a cidade, o rio, a praça, árvores e pássaros. Um fio conectado a outros me possibilitou enviar instantaneamente os textos para o jornal em Joinville, sempre nas sextas até meio-dia para que fossem publicados nas segundas-feiras, uma rotina e um prazer.

Neste computador chegaram as mensagens eletrônicas dos leitores. Algumas chegavam antes de voltar da banca com o jornal. Outras, semanas depois, como a daquele leitor que estava distraído na rua, quando o vento lhe soprou no rosto a folha de jornal, vinda não sei de onde. Nas mensagens, mães me contaram dos filhos e jovens demonstraram preocupação com o futuro do planeta. Teve quem me enviou poema e quem me solicitou opinião sobre namoro.

Respondi a todas. Enviei mensagens a quem nunca vi. Não faço a mínima idéia da cor do cabelo, do jeito de sorrir ou chorar desses leitores. Tentei imaginar se me escreviam de uma ruazinha estreita ou do alto de um prédio. Muitos estudantes me escreveram. Espero que ninguém tenha baixado a nota por minha causa.

Os despertadores tocarão nas segundas-feiras, o pão quentinho chegará nas mesas, um pai pela primeira vez abraçará o filho no caminho da escola, alguém abrirá um cadastro para pegar livro emprestado na biblioteca, um cego passará os dedos suavemente sobre a escrita braille, alguém tomará um café preto num bar, outro entrará apressado na banca pra comprar jornal...

Aprendo mais uma faceta da crônica: a última é a mais difícil de escrever!

6 comentários:

Anônimo disse...

Cara Suzana
Esta crônica está muito bonita, o que não é novidade, vindo daí.
Tentei passar uma mensagem via e-mail para vc mas meu micro entendeu de dar o big-bang dele,
e estou aguardando um outro.
Estou recebendo mas não consigo enviar e-mails.
Talvez eu não recupere meus arquivos, inclusive a agenda de endereços eletrônicos aiaiaiaiaiai aaaaai!!!. É uma sensação estranha sepre que existe a possibilidade de eu não ter as mesmas informações no mesmo lugar. É estranho tambem não ler a Suzana Mafra às segundas. Sou assinante do A Notícia e você nos trazia sempre um pouco de oxigênio com as locações de seus textos, que ora eram quintais com frutas, ou um lugar no íntimo da alma, ou num barzinho... Pois é cara poeta, diz o ditado: nada como um dia depois do outro. Avante garota! Diz a galera: A fila anda! Nada como o frescor e o talento de uma cabeça boa como a sua. Abraço daqui da Laguna cujo carnaval tá bombando.
Fatima - já vestida com o abadá do bloco!

Rubens da Cunha disse...

Elegância acima de tudo, gostei muito. Parabéns

Regina disse...

Pox,comadre, tá uma despedida muito bonita,cheia de poesia e dignidade,como tudo que fazes.
Agora nos brindas com teus poemas e teus relatos por aqui, que um blog é pra isso.
beijo

Suzana Mafra disse...

Fátima
Laguna deve estar uma loucura. Bom carnaval!

Rubens
Obrigada, querido.

Regina
Obrigada pelo carinho.
Blog? Talvez.

merry disse...

Ai como despedidas são tristes, mais como sempre apaixonante seu modo de escrever, consegui visualizar o abraço do pai no filho e tudo mais.

Í.ta** disse...

suzana,
fiquei surpreso demais ao ler a crônica, esta última.
não cogitava sua saída. não entrei aqui no teu blog pra saber antes de lê-la.
fiquei triste demais!
e ainda estou!
e pensar que nos conhecemos através daquele espaço, né, quando passei a te escrever a partir do que lia de escrito teu.
mantemos o contato, claro.
beijo carinhoso daqui.