segunda-feira, 21 de julho de 2008

São Cristóvão (crônica)

Dia 25 é dia de São Cristóvão, o protetor dos viajantes. A procissão, seguida de festa, acontece no domingo próximo à data comemorativa. Uma grande festa religiosa. Geralmente frio.

Mamãe nos agasalhava. Apesar da cerração da manhã, sentávamo-nos em frente de casa para esperar a procissão anunciada por foguetes. Sabíamos que chegaria e passaria em frente ao portão. Primeiro o caminhão trazendo o santo com o menino ao colo, geralmente adornado de flores e rodeado de anjos. Em seguida, os carros em fila.

Para cada pessoa havia um sentido de estar ali. Alguns procuravam por parentes, outros apreciavam a beleza dos carros. Havia quem se admirasse de o santo não cair daquela altura e até quem, alheia a tudo, brincasse de boneca.

Certo é que não havia outro assunto naquele dia. Certo, também, é que naquela família ninguém acompanhava a procissão, pois não havia carro nem motorista, o pai tinha problema "nas vistas". Apreciava do portão com os filhos aquele momento "tão bonito", conforme dizia.

Era comum que algum parente os visitasse durante o domingo festivo. Se fosse de tarde, servia-se licor de figo com docinhos de araruta; se fosse almoço, galinha assada em forno a lenha, acompanhada de gasosa cor-de-rosa. Os parentes demonstravam alegria sincera. Saudade nos olhos, nos abraços e nas suas conversas.

Quando o progresso chegou por aquelas bandas, construíram uma rua nova e mais larga, cortaram o morro e mudaram a geografia. No primeiro ano, os moradores sentaram-se em frente às casas e esperaram pela procissão. Ouviram os foguetes e o barulho dos carros se aproximar e se afastar, sem por lá passar. Entraram em suas casas cabisbaixos e se ocuparam com os afazeres. Até Deus se curvara ao progresso.

Com a multiplicação da população e, conseqüentemente, dos carros, foi bom mesmo que a procissão deixasse de passar naquela pequena rua bucólica. Pois as pessoas bebiam na festa regada a churrasco e cerveja. Bebida e volante, até São Cristóvão sabe, não combinam.

De maneira que, naquela redondeza, passou a se dizer que prudente era não sair de casa, pois havia muita gente a dirigir bêbada. Melhor assim, quem quisesse subir o morro para ver a procissão passar, tudo bem. Podia levar uma cadeirinha ou toalha felpuda e sentar na beira da "federal". Até hoje tem quem faz isso. Mas já não há mais tanta graça. Nem em ver os carros passarem, nem em encontrar parentes, nem em ver o santo, muito menos em ouvir foguetes.

Revelo um segredo que escondi de todos. Aquele santo, ao passar, dizia algo que não entendia, sussurrava em meus ouvidos, mas o barulho dos carros e dos foguetes não me deixava ouvir.

Hoje eu sei o que ele me dizia: "Vai, Suzana, ser escritora na vida". Daí a importância daquele dia. Sabia sem o saber: dia 25 é o dia do escritor!

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7 comentários:

Rubens da Cunha disse...

adorei essa crônica, li hoje no jornal e me remeteu aos meus tempos de procissão na festa de Araquari.
abraços

marcia cardeal disse...

Lembrei das brincadeiras na rua, dos banhos no rio, da parreira de framboesa e do olhar sério de teu pai. Lembrei de um santo tão distante de mim e tão certo em sua profecia ao teu ouvido. Que bom! beijo

Mandy disse...

Que crônica linda! Vc escreve muito bem! Parabéns.
Vou continuar a dar uma olhadinha no seu blog...
Voltarei aki mais vezes...

^^

BjO.

Alaide disse...

Que bacana!! Não sabia que era dia do escritor também...

Aqui moro na mesma rua que tem uma igreja, então fica uma fila de carros para serem abençoados...

Florescer disse...

Que texto bom de ler! leva-me a tantos lugares e tantas recordações. Tenho um irmão que aniversaria no dia 25 - escapou de se chamar Cristovão - não é motorista nem escritor, é professor de português. Mas, pelo sim e pelo não, vamos à Igreja Matriz onde o Padre abençoa os carros e seus respectivos motoristas. Nesse ano será no dia 27(domingo). É, ainda, uma festa.
Que bom encontrar o seu espaço.
Jacinta

Anônimo disse...

Hahahahahahah mas que criança privilegiada!
Está mesmo uma gracinha o texto,
conto-crônica, que atraiu minha atenção porque sou devota de São
Cristovão (dele e mais trocentos, hahahah).Hoje ainda li "Com licença poética" de ADÉLIA PRADO,
onde ela também parafraseia,
faz adaptação/releitura, em Drummond, do verso: "Vai, Carlos! ser gauche na vida". Bjão da capital da República juliana.

Suzana Mafra disse...

Obrigada a todos que me visitaram e deixaram comentários.

Que São Cristóvão vos abençoe!