quarta-feira, 4 de abril de 2007

Lembranças (crônica)

Pai,

Insônia. A Páscoa chegando e a tua lembrança.

Eu te pediria desculpas pela minha preguiça em rezar ou acompanhar a procissão, minha cara feia ao teu lado durante a missa, meus passos automáticos, vacilantes. A pipoca como se fosse pouca, a água da gruta como se não fosse fresca e os deuses como se fossem ocos. Eu te pediria desculpas. E te pediria: fique para mais uma Páscoa, apenas uma. Eu na minha bicicleta, tentando pedalar no teu ritmo, observava o teu silêncio e o teu esforço em chegar, cumprir o ritual de domingo.

Eu te pediria tempo. Faria tudo do começo e novo. Prepararia a terra para o amendoim. Escolheria as melhores sementes. Saberia o tempo de colher, depois lavar, deixar secar ao sol. Desprendê-los, descascá-los. Faria tudo isso sorrindo de contentamento. Como nunca o fizera. Não me importaria com o sol ou com a chuva, nem com a roupa suja e as unhas estragadas. O suor na cara e a lide não me assustariam, ao contrário, seriam o tempero da vida.

Depositaria na quarta (caixa de madeira) o amendoim que seria debulhado para fazer as amêndoas. Ajudaria a guardar as casquinhas de ovos ao longo do ano com o máximo de cuidado, para depois pintá-las ou decorá-las com papel de seda ou crepom. Inventaria coisas novas: coelhos, galinhas, ratinhos e cartuchos para uma Páscoa feliz. Seria a primeira a querer aprender o ponto do açúcar, o momento exato de retirar do fogo o amendoim transformado em amêndoa e aprenderia todos os tipos, a de cobertura branca, chocolate, ou moída.

E não me importaria de acompanhá-lo na procissão ou no lava-pés. Seguiria à frente da multidão com uma vela acesa. Terias orgulho de mim. Não perderia o meu olhar no infinito, na nuvem, ou nos pardais. Prenderia meu olhar no Cristo à frente, no padre vestido de roupas bordadas e no ritmo de teus passos, pois para cada um teu, precisaria de dois meus. Tudo isso eu saberia. E não me cansaria.

Também não esmoreceria diante da quantidade de afazeres. Não reclamaria dos calos nas mãos, nem por deixar a brincadeira para depois. Seguiria na frente em busca de cebolinha vermelha para tingir os ovos de Sexta-feira Santa que seriam cozidos. Pai, você não imagina, hoje não se encontram ovos, nem galinhas, as casas são quadradas, as cozinhas diminuíram e não se usa chapéu, nem sombrinha, apesar do sol!

Tudo foi perdendo a graça. Compra-se pronto no supermercado. Lembra, pai, daquela Páscoa que não encontrei minha cesta? Então tu, comovido diante de minha tristeza (era a única a não encontrá-la), me pediste para buscar banana nos fundos da casa, e eu fui. E lá, entre os cachos de banana, encontrei uma cesta repleta de ovos. Sequei as lágrimas do rosto e fui almoçar (após a oração, claro). Estavam todos à mesa, felizes? Sim, completamente, algo que não existe mais, que não se repete.

In: Caderno Anexo (Jornal A Notícia, 02/04/2007)

2 comentários:

marcia cardeal disse...

lindo lindo lindo lindo lindo!!!...segui teus passos, vi os olhos de teu pai. beijo

Cilmara disse...

Que coisa linda, menina!
Embora não se pareça com a minha realidade, há a falta do pai... chorei. Tenho tantas saudades do meu.
Obrigada.
Beijo mineiro.