segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Antes do Natal

Não sei quantos anos tinha quando, pela primeira vez, ajudei na faxina de Natal. Limpávamos a casa inteira: forro, sótão, paredes, chão, janelas (vidros e venezianas). Na certa, atrapalhava mais do que ajudava.

Se não me engano, começávamos no início de dezembro. A casa era enorme e cheia de esconderijos. E havia o pátio, com o jardim da frente, os canteiros dos fundos, o gramado, o galinheiro e o pomar que se estendia até o rio. No rio havia a praia para os banhos de verão. Outros tempos.

Cada pedaço da casa era limpo e organizado. Tirava-se tudo dos armários, limpava-se muito bem, escolhia-se o que ficava e o que não servia, para descartar ou doar. Havia tarefas para todos: mãe, irmãs, irmãos e pai. O rancho onde se guardavam bicicletas e ferramentas também passava pelo processo. Até o galinheiro. As galinhas ganhavam gamela nova e água fresca.

Tantas eram as tarefas que temíamos a chegada do Natal, antes que tivéssemos dado conta de fazer o pretendido. Mas isso nunca aconteceu. Outro receio é que não sobrasse tempo para a compra dos nossos presentes. Isso também nunca aconteceu.

Na véspera de Natal, a cozinha mais parecia um restaurante: mesa cheia de fôrmas de cuca e doces, galinhas sendo recheadas antes de assarem, forno em brasa. Um exército de pessoas trabalhava sem nenhuma pressão ou briga, na mais perfeita harmonia e alegria. Verdade e saudade.

De tanto olhar e ajudar, acabei aprendendo as tarefas. Quando minhas irmãs começaram a trabalhar fora, passei a fazer muitos dos serviços da casa, sob o comando da mãe. Ela acordava às cinco horas da manhã e acabava dormindo no sofá, com a TV ligada, de tanto cansaço. Abria os olhos quando um filho chegava do trabalho, cumprimentava e tornava a fechá-los de forma automática.

Enfeitar o pinheiro e fazer o presépio eram nossas tarefas natalinas favoritas. Cortar o pinheiro dos fundos da casa, que todo ano brotava, era serviço para homem. Enfeitá-lo, serviço de mulher. Os menores penduravam apenas uma bola ou cabelos de anjo na parte mais baixa da árvore, supervisionados pelos irmãos mais velhos.

Alguns preferiam enfeitar o pinheiro, outros, fazer o presépio. A cada ano montávamos de um jeito diferente. Toda a vizinhança vinha à nossa casa ver o cenário do nascimento de Jesus. Não havia luxo. O jogo de peças era o de sempre: menino Jesus, José e Maria, três ovelhinhas, uma vaquinha e um boizinho. O resto, inventávamos: caminhos, árvores, casas, pessoas, bichos. E nem conhecíamos Franklin Cascaes.

In: Jornal A Notícia, Anexo, p. 3 (15/12/2008)

2 comentários:

Anônimo disse...

Sem dúvida uma bonita, muito bonita, crônica!
Bem lembrado o Cascaes, no seu centenário. Parabéns Suzana!
Abraço da Fatima.

Ítalo disse...

linda crônica,
suzana.

bom passar por aqui novamente.

um final de ano iluminado
pra vc.