quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Uma ave pousa na ponta do banco, uma ave sob a árvore, sobra da rotina do azul do dia, uma águia que se bica, enquanto caminho em direção ao beco (sem saída). A saia da mulher se dobra quando ela senta, a asa da ave se abre, se desdobra num vôo-árvore, pousa uma flor no galho retorcido, a mulher retorce o jornal não lido, descansa da lide, na capa do jornal o descaso, no céu o sol ocaso, no ar calor, agora o banco vazio e largo, sem ave, sem mulher, sem dor, sem cor, sem se dar conta da tristeza do banco um menino apóia o pé para amarrar o cadarço do tênis, não vê a ave, nem ouve o canto, olha para os pés do banco apoiados no barro, nenhum espanto, não vê a formiga que passa, mas ouve um berro formidável do outro lado da praça, o chamado de um amigo, se vai, talvez não volte mais, um pedaço de praça foi o que sobrou, foi o que se permitiu sobrar quando os sobrados deram lugar aos edifícios e os carros se multiplicaram geometricamente, estratosfericamente. Sobe no céu a lua redonda, um refletor sobre o banco solitário, brilhante, belo.

2 comentários:

Vieira Calado disse...

Andei a ver os outros textos, poemas, curtos e longos e gostei.
Um abraço desde Lagos.

Rubens da Cunha disse...

belo e enigmatico
gostei