terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Apontamentos de verão

A vida pode ser leve
A vida pode ser breve
A vida só não pode ser fugaz
A vida só não pode ser fingimento

E se parássemos
para olhar o infinito sobre o mar?
Se parássemos por um instante,
quem atuaria no plano tecnológico, político, pedagógico?

Cadê a Escola com jeito de casa?
Como aprender sobre a vida num lugar sem vida?

É preciso que o movimento no Cairo se universalize
É preciso decretar que nenhuma árvore será derrubada
Derrubem os homens, deixem as árvores

Que o litoral seja decretado lugar de todos
para que nós acampemos quando pudermos
e aves, bichos e plantas voltem à vida

Façamos a revolução!

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Mensagem de natal

obrigada
obrigada por você estar aqui
obrigada e feliz natal
por você ter comentado aqui, obrigada
feliz natal
muita paz no ano que vem
muita paz e amor
muita paz vem no ano que vem
muito amor vai e vem vem e vai
amor que fica é divino
feliz natal e a graça do amor divino
obrigada
feliz natal e muitas garças

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Tratado zen

O pequeno Samurai me feriu
com o arco de ipê roxo

Uma mulher não deve ceder aos caprichos de um Samurai
uma mulher deve lutar pela preservação dos ipês

Sob o ipê roxo
enterro o amor impossível
a sete palmos do chão

sábado, 11 de setembro de 2010

Abacaxi

O que você leva dentro?
Eu velo um abacaxi
entalado no ventre

Abacaxi também tem suas fases
flor, fruta doce
coroa de espinhos
casca grossa

O amor é um abacaxi

sábado, 31 de julho de 2010

Ninguém

Toquei minha pele na pele do meu
inimigo. Nunca mais escrevi nome
algum. Ninguém: é o que sou.

Hiberno. Até que tudo retome um
sentido. O desassossego é para ser
sentido a sós.

Beijei a face do meu inimigo. Uma e
Outra. Ele ofereceu-me o corpo.
Negado três vezes: judiação.

Com lâmina afiada, arranquei a pele
do meu braço e rosto. Pergaminho
para escrever nenhum nome.

Hiberno. Enquanto meu corpo se
reveste.

Pele macia a do inimigo. Lobo vestido
de algodão. Boca e língua de castigo.
O verbo: emudecido.

Hiberno.


Poema finalista do Prêmio OFF FLIP 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

olhos de saramargo

pés caminham como se afundassem
na ponta dos dedos flores de medo

nunca mais, na história deste lugar,
se sonhará como antes

os inimigos se afagam
rabos de raposas se alisam

que é isso compañero?
(plátanos a menos
carros hyundai a mais)
compañero, isso é diñero

compañero, nada vejo:
olhos de saramargo
ensaiam sobre a cegueira

quinta-feira, 11 de março de 2010

Criança no jardim
Na casa em que nasceu havia um extenso jardim. Imaginem, vocês, aprender as palavras num lugar assim, apontando para a flor e perguntando, e esta, como se chama? Alguém, então, carinhosamente (ou irritadamente) lhe respondendo: rosa, cravo, jasmim. Enquanto ouvia as respostas, a criança sentia as sensações das palavras novas: j-a-s-m-i-m dá uma sensação de veludo na garganta; cravo, uma coisa mais cortada, talvez por causa da música que se aprende do cravo que brigou com a rosa. Coitada da rosa despedaçada.
A criança ouvia a música e tentava entender. Qual motivo havia levado o cravo a brigar com a rosa? Não dava conta de compreender, então voltava a olhar o jardim, onde encontrava outras florezinhas desabrochando.
O mundo das sensações e das palavras. As sensações que as palavras provocam. Deixem-me aqui, pensava, com as minhas sensações. Dêem-me o tempo necessário para ruminar o mundo.