Poema de Natal
Quando a festa termina
ajudo a limpar e organizar a casa:
junto papéis, pedaços de fitas e laços jogados pelo chão.
Mais tarde, antes de dormir,
tento unir os pedaços perdidos da alma e da festa.
Então uma estrela brilha no alto do céu do meu quarto
e eu durmo feito o Jesus menino.
domingo, 21 de dezembro de 2008
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Antes do Natal
Não sei quantos anos tinha quando, pela primeira vez, ajudei na faxina de Natal. Limpávamos a casa inteira: forro, sótão, paredes, chão, janelas (vidros e venezianas). Na certa, atrapalhava mais do que ajudava.
Se não me engano, começávamos no início de dezembro. A casa era enorme e cheia de esconderijos. E havia o pátio, com o jardim da frente, os canteiros dos fundos, o gramado, o galinheiro e o pomar que se estendia até o rio. No rio havia a praia para os banhos de verão. Outros tempos.
Cada pedaço da casa era limpo e organizado. Tirava-se tudo dos armários, limpava-se muito bem, escolhia-se o que ficava e o que não servia, para descartar ou doar. Havia tarefas para todos: mãe, irmãs, irmãos e pai. O rancho onde se guardavam bicicletas e ferramentas também passava pelo processo. Até o galinheiro. As galinhas ganhavam gamela nova e água fresca.
Tantas eram as tarefas que temíamos a chegada do Natal, antes que tivéssemos dado conta de fazer o pretendido. Mas isso nunca aconteceu. Outro receio é que não sobrasse tempo para a compra dos nossos presentes. Isso também nunca aconteceu.
Na véspera de Natal, a cozinha mais parecia um restaurante: mesa cheia de fôrmas de cuca e doces, galinhas sendo recheadas antes de assarem, forno em brasa. Um exército de pessoas trabalhava sem nenhuma pressão ou briga, na mais perfeita harmonia e alegria. Verdade e saudade.
De tanto olhar e ajudar, acabei aprendendo as tarefas. Quando minhas irmãs começaram a trabalhar fora, passei a fazer muitos dos serviços da casa, sob o comando da mãe. Ela acordava às cinco horas da manhã e acabava dormindo no sofá, com a TV ligada, de tanto cansaço. Abria os olhos quando um filho chegava do trabalho, cumprimentava e tornava a fechá-los de forma automática.
Enfeitar o pinheiro e fazer o presépio eram nossas tarefas natalinas favoritas. Cortar o pinheiro dos fundos da casa, que todo ano brotava, era serviço para homem. Enfeitá-lo, serviço de mulher. Os menores penduravam apenas uma bola ou cabelos de anjo na parte mais baixa da árvore, supervisionados pelos irmãos mais velhos.
Alguns preferiam enfeitar o pinheiro, outros, fazer o presépio. A cada ano montávamos de um jeito diferente. Toda a vizinhança vinha à nossa casa ver o cenário do nascimento de Jesus. Não havia luxo. O jogo de peças era o de sempre: menino Jesus, José e Maria, três ovelhinhas, uma vaquinha e um boizinho. O resto, inventávamos: caminhos, árvores, casas, pessoas, bichos. E nem conhecíamos Franklin Cascaes.
In: Jornal A Notícia, Anexo, p. 3 (15/12/2008)
Se não me engano, começávamos no início de dezembro. A casa era enorme e cheia de esconderijos. E havia o pátio, com o jardim da frente, os canteiros dos fundos, o gramado, o galinheiro e o pomar que se estendia até o rio. No rio havia a praia para os banhos de verão. Outros tempos.
Cada pedaço da casa era limpo e organizado. Tirava-se tudo dos armários, limpava-se muito bem, escolhia-se o que ficava e o que não servia, para descartar ou doar. Havia tarefas para todos: mãe, irmãs, irmãos e pai. O rancho onde se guardavam bicicletas e ferramentas também passava pelo processo. Até o galinheiro. As galinhas ganhavam gamela nova e água fresca.
Tantas eram as tarefas que temíamos a chegada do Natal, antes que tivéssemos dado conta de fazer o pretendido. Mas isso nunca aconteceu. Outro receio é que não sobrasse tempo para a compra dos nossos presentes. Isso também nunca aconteceu.
Na véspera de Natal, a cozinha mais parecia um restaurante: mesa cheia de fôrmas de cuca e doces, galinhas sendo recheadas antes de assarem, forno em brasa. Um exército de pessoas trabalhava sem nenhuma pressão ou briga, na mais perfeita harmonia e alegria. Verdade e saudade.
De tanto olhar e ajudar, acabei aprendendo as tarefas. Quando minhas irmãs começaram a trabalhar fora, passei a fazer muitos dos serviços da casa, sob o comando da mãe. Ela acordava às cinco horas da manhã e acabava dormindo no sofá, com a TV ligada, de tanto cansaço. Abria os olhos quando um filho chegava do trabalho, cumprimentava e tornava a fechá-los de forma automática.
Enfeitar o pinheiro e fazer o presépio eram nossas tarefas natalinas favoritas. Cortar o pinheiro dos fundos da casa, que todo ano brotava, era serviço para homem. Enfeitá-lo, serviço de mulher. Os menores penduravam apenas uma bola ou cabelos de anjo na parte mais baixa da árvore, supervisionados pelos irmãos mais velhos.
Alguns preferiam enfeitar o pinheiro, outros, fazer o presépio. A cada ano montávamos de um jeito diferente. Toda a vizinhança vinha à nossa casa ver o cenário do nascimento de Jesus. Não havia luxo. O jogo de peças era o de sempre: menino Jesus, José e Maria, três ovelhinhas, uma vaquinha e um boizinho. O resto, inventávamos: caminhos, árvores, casas, pessoas, bichos. E nem conhecíamos Franklin Cascaes.
In: Jornal A Notícia, Anexo, p. 3 (15/12/2008)
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
Dasabrigados (crônica)
– É aqui, pai?
– Sim filha, é aqui.
– Gostei.
– Olhe o seu quarto novo...
– Que lindo, pai!
A mãe prepara o primeiro almoço na casa nova.
Anos mais tarde, numa enchente devastadora, a casa sumiria, o morro desabaria em lama sobre o quarto, cobrindo boneca, menina, mãe, pai. Engolidos pela montanha.
Ou então: a casa desabou, mas os três se salvaram por um triz, quis o destino (ou a sorte, ou o anjo) que estivessem fora, em viagem, quando a avalanche desceu. Ao retornar, o pai olha a casa desabada e não acredita, a mãe perde a fala, a filha chora.
Caminham os três desalentados pela rua. Ainda ontem tinham casa, quarto e cama, de repente, tudo tomado de lama. E a alma? Molhada de chuva.
Desorientados. Quem tirou a casa que estava aqui? Cadê nosso porto seguro? É na casa que SOMOS, é na casa que tiramos a roupa, tomamos banho, dormimos, fazemos amor com o companheiro, guardamos os segredos, os sonhos, os brinquedos. É na casa que choramos.
E num estalar de dedos, ou um lance de dados, tudo nos é tirado, o brinquedo, o sonho, a casa, a liberdade.
Abrigados num abrigo. A solidariedade aconchega. Comida não falta, nem colchão, mas dentro, meu Deus, uma memória que não se apaga, a lembrança da construção, dos sacrifícios de anos de trabalho, do dinheiro juntado para comprar a casa, os móveis, as roupas; a primeira olhada pela janela da casa, a vista da cozinha, o cheiro de café, tudo vem e vai enquanto a noite cai.
Alguns saíram às ruas saqueando coisas, desespero aliado a despreparo, falta de paciência, medo. E se a coisa piorar, e se a chuva não passar, e se o barro não secar, como será?
O morro do baú. Era uma vez o morro do baú. Depois veio um dilúvio, quarenta dias e quarenta noites. Lama e mortes.
A casa, o porto seguro, refúgio das dores do quotidiano, alicerce onde reinamos. A casa caiu, a casa sumiu, a casa cheia de água. O coração cheio de lágrima.
Mas a força brota, de algum lugar a força brota, de mangas arregaçadas as paredes são lavadas. A vida segue, vamos em frente, daqui mais uns dias, mais uns meses, mais uns anos, quem sabe...
– É aqui, pai?
– Sim filha, é aqui.
– Gostei.
– Olhe o seu quarto novo...
– Que lindo, pai!
A mãe prepara o primeiro almoço na casa nova.
– Sim filha, é aqui.
– Gostei.
– Olhe o seu quarto novo...
– Que lindo, pai!
A mãe prepara o primeiro almoço na casa nova.
Anos mais tarde, numa enchente devastadora, a casa sumiria, o morro desabaria em lama sobre o quarto, cobrindo boneca, menina, mãe, pai. Engolidos pela montanha.
Ou então: a casa desabou, mas os três se salvaram por um triz, quis o destino (ou a sorte, ou o anjo) que estivessem fora, em viagem, quando a avalanche desceu. Ao retornar, o pai olha a casa desabada e não acredita, a mãe perde a fala, a filha chora.
Caminham os três desalentados pela rua. Ainda ontem tinham casa, quarto e cama, de repente, tudo tomado de lama. E a alma? Molhada de chuva.
Desorientados. Quem tirou a casa que estava aqui? Cadê nosso porto seguro? É na casa que SOMOS, é na casa que tiramos a roupa, tomamos banho, dormimos, fazemos amor com o companheiro, guardamos os segredos, os sonhos, os brinquedos. É na casa que choramos.
E num estalar de dedos, ou um lance de dados, tudo nos é tirado, o brinquedo, o sonho, a casa, a liberdade.
Abrigados num abrigo. A solidariedade aconchega. Comida não falta, nem colchão, mas dentro, meu Deus, uma memória que não se apaga, a lembrança da construção, dos sacrifícios de anos de trabalho, do dinheiro juntado para comprar a casa, os móveis, as roupas; a primeira olhada pela janela da casa, a vista da cozinha, o cheiro de café, tudo vem e vai enquanto a noite cai.
Alguns saíram às ruas saqueando coisas, desespero aliado a despreparo, falta de paciência, medo. E se a coisa piorar, e se a chuva não passar, e se o barro não secar, como será?
O morro do baú. Era uma vez o morro do baú. Depois veio um dilúvio, quarenta dias e quarenta noites. Lama e mortes.
A casa, o porto seguro, refúgio das dores do quotidiano, alicerce onde reinamos. A casa caiu, a casa sumiu, a casa cheia de água. O coração cheio de lágrima.
Mas a força brota, de algum lugar a força brota, de mangas arregaçadas as paredes são lavadas. A vida segue, vamos em frente, daqui mais uns dias, mais uns meses, mais uns anos, quem sabe...
– É aqui, pai?
– Sim filha, é aqui.
– Gostei.
– Olhe o seu quarto novo...
– Que lindo, pai!
A mãe prepara o primeiro almoço na casa nova.
In: Jornal a Notícia, Anexo, p. 3 (05/12/2008)
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Dilúvio (crônica)
A chuva começa com um pingo e mais outro. Também pode começar com um dia de céu azul. Talvez o indivíduo saia de casa pela manhã com sol e se arrependa de não ter calçado botas de borracha. Nenhuma certeza de que o tempo não mudará entre a manhã e a noite, entre a ida e a volta do trabalho, entre o anoitecer e o amanhecer.
Os noticiários anunciaram que choveria acima do normal, mas o que seria acima do normal para quem já estava numa maré de chuva há meses, com praticamente todos os finais de semana do semestre chovendo? Nenhuma praia ainda, a pele branca, mas isso era o de menos, até porque a saúde está nas peles que menos tomaram sol.
Nutrimos a falsa idéia de que se pode tudo, de que natureza é uma coisa que nem mais existe, afinal, a água é da empresa que nos vende; a energia da empresa que nos cobra; e a terra em que moramos foi comprada... ainda não pagamos pelo ar que respiramos.
Moramos em prédios, moramos apertados e nos assustamos ao encontrar o supermercado lotado em pleno domingo ao meio-dia, sendo que estavam lá apenas os menos atingidos, porque os mais atingidos estavam tentando segurar barrancos ou ilhados ou em abrigos.
Sensação sinistra, por pouco a coisa não fica ainda pior, pois no domingo à noite as águas baixavam em Brusque, mas subiam em Itajaí. Nem uma tristeza se dissipara, outra, ainda maior e mais pungente, começava. Somente na segunda-feira os jornais de porte nacional se deram conta do tamanho da catástrofe.
Geólogos e geógrafos tentam explicar, engenheiros mostram projetos. A grande verdade é que o mundo parece pequeno e insuficiente para a quantidade de pessoas que o habitam. E as pessoas que o habitam perderam a noção do bom senso. O conhecimento produzido não é aplicado para uma efetiva melhoria da convivência humana no planeta Terra. Nem países mais evoluídos conseguem isso, imagina o Brasil.
Dias antes, o comércio focado em vender para o Natal, as famílias preocupadas em consumir. Uma insatisfação coletiva pairava no ar, nada é suficiente para a felicidade permanente. Então vem a catástrofe e pega todos de surpresa. De maneira que ninguém mais tem certeza de nada, olhamos atônitos para a estatística dos mortos e dos sonhos soterrados ou submersos.
Deveríamos estar mais preparados para as adversidades, mas a ilusão nos rodeia. A vivência em abrigos pode nos ensinar a ver o outro mais de perto, devemos ajudar os mais necessitados agora e adiante. Urge que cuidemos da mãe natureza e que as prefeituras planejem e fiscalizem melhor. Liberar áreas impróprias em troca de favores políticos, cortar morros e devastar matas são cenas corriqueiras em Santa Catarina. Adiante a catástrofe.
Precisamos evoluir, nos tornar mais sábios e fraternos. Isso não será fácil, pois o sistema que nós ajudamos a criar transformou-se em um jogo de interesses. Vivemos numa imensa ilha, o que atinge um, inevi-tavelmente, atingirá o outro.
In: jornal A Notícia, caderno Anexo, p. 3 (01/12/2008)
Os noticiários anunciaram que choveria acima do normal, mas o que seria acima do normal para quem já estava numa maré de chuva há meses, com praticamente todos os finais de semana do semestre chovendo? Nenhuma praia ainda, a pele branca, mas isso era o de menos, até porque a saúde está nas peles que menos tomaram sol.
Nutrimos a falsa idéia de que se pode tudo, de que natureza é uma coisa que nem mais existe, afinal, a água é da empresa que nos vende; a energia da empresa que nos cobra; e a terra em que moramos foi comprada... ainda não pagamos pelo ar que respiramos.
Moramos em prédios, moramos apertados e nos assustamos ao encontrar o supermercado lotado em pleno domingo ao meio-dia, sendo que estavam lá apenas os menos atingidos, porque os mais atingidos estavam tentando segurar barrancos ou ilhados ou em abrigos.
Sensação sinistra, por pouco a coisa não fica ainda pior, pois no domingo à noite as águas baixavam em Brusque, mas subiam em Itajaí. Nem uma tristeza se dissipara, outra, ainda maior e mais pungente, começava. Somente na segunda-feira os jornais de porte nacional se deram conta do tamanho da catástrofe.
Geólogos e geógrafos tentam explicar, engenheiros mostram projetos. A grande verdade é que o mundo parece pequeno e insuficiente para a quantidade de pessoas que o habitam. E as pessoas que o habitam perderam a noção do bom senso. O conhecimento produzido não é aplicado para uma efetiva melhoria da convivência humana no planeta Terra. Nem países mais evoluídos conseguem isso, imagina o Brasil.
Dias antes, o comércio focado em vender para o Natal, as famílias preocupadas em consumir. Uma insatisfação coletiva pairava no ar, nada é suficiente para a felicidade permanente. Então vem a catástrofe e pega todos de surpresa. De maneira que ninguém mais tem certeza de nada, olhamos atônitos para a estatística dos mortos e dos sonhos soterrados ou submersos.
Deveríamos estar mais preparados para as adversidades, mas a ilusão nos rodeia. A vivência em abrigos pode nos ensinar a ver o outro mais de perto, devemos ajudar os mais necessitados agora e adiante. Urge que cuidemos da mãe natureza e que as prefeituras planejem e fiscalizem melhor. Liberar áreas impróprias em troca de favores políticos, cortar morros e devastar matas são cenas corriqueiras em Santa Catarina. Adiante a catástrofe.
Precisamos evoluir, nos tornar mais sábios e fraternos. Isso não será fácil, pois o sistema que nós ajudamos a criar transformou-se em um jogo de interesses. Vivemos numa imensa ilha, o que atinge um, inevi-tavelmente, atingirá o outro.
In: jornal A Notícia, caderno Anexo, p. 3 (01/12/2008)
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Rachel e Sabrina (crônica)
Em algum momento da vida compraremos uma mala. Antes de viajar, por exemplo. Entramos contentes na loja, analisamos o tamanho, a cor, a qualidade, vai que arrebente, não queremos que nossa mala se arrebente no meio da viagem, nem que seja grande ou pequena demais, por isso, às vezes, algum familiar ou amigo nos acompanha e ajuda na compra. Quando viajamos, levamos na mala objetos de uso pessoal, roupas, um livro ou revista. O destino da mala é este. Assim, as malas seriam felizes. Mas tem quem invente outro. Então a mala vê o horror dentro de si, pior, é usada para escondê-lo. De maneira que se esforçará para que alguém a encontre o quanto antes, afinal, está assustada sob a escada da rodoferroviária de Curitiba, onde cada minuto parece uma eternidade. Está disposta a ajudar a polícia na identificação do sujeito que cometeu tamanha atrocidade com a menina. Ela sabe quem foi.
Há quem jogue fora a caixa do televisor no mesmo dia em que compra o aparelho. Os precavidos guardam alguns dias, até que o aparelho seja testado. Muitas vezes, esquece-se da caixa, então ela fica lá nos fundos da casa, pegando chuva e ouvindo latidos. Destino incerto, o das caixas. Quando fabricou a caixa de papelão, o funcionário uniformizado da empresa de papel e papelão, em um momento de devaneio, imaginou para que serviria aquele produto: pelo tamanho, deduziu, guardará uma TV de 29 polegadas. E depois? Serviria de abrigo a algum mendigo, de cabana para alguma criança brincar... Isso deixa o funcionário satisfeito com o seu trabalho. Por algum erro do destino, a caixa foi encontrada na praça Nirvana, embrulhando o corpo morto da Sabrina.
Há quem jogue fora a caixa do televisor no mesmo dia em que compra o aparelho. Os precavidos guardam alguns dias, até que o aparelho seja testado. Muitas vezes, esquece-se da caixa, então ela fica lá nos fundos da casa, pegando chuva e ouvindo latidos. Destino incerto, o das caixas. Quando fabricou a caixa de papelão, o funcionário uniformizado da empresa de papel e papelão, em um momento de devaneio, imaginou para que serviria aquele produto: pelo tamanho, deduziu, guardará uma TV de 29 polegadas. E depois? Serviria de abrigo a algum mendigo, de cabana para alguma criança brincar... Isso deixa o funcionário satisfeito com o seu trabalho. Por algum erro do destino, a caixa foi encontrada na praça Nirvana, embrulhando o corpo morto da Sabrina.
Se de um lado a mala, sem querer, participou desse crime brutal, por outro, servirá de pista para que se identifique o assassino. A caixa de papelão, por sua vez, desejaria ter qualquer destino, menos esse; porém, foi decisiva na revelação do criminoso, por causa de uma etiqueta que ostentava. Tudo leva um código, até nós, apesar de andarmos soltos pelo mundo; vazios como caixas, muitas vezes, e aventureiros como malas, de vez em quando.
Mas o código de que as duas meninas-moças gostavam, pelo que soube por meio da imprensa, é aquele que existe há seis mil anos, o das palavras. As meninas adoravam ler. Boas alunas na escola, tinham um futuro promissor. Pais que as amavam. Rachel (nove anos) havia tirado primeiro lugar num concurso de redação da biblioteca do Paraná. Seria escritora?
Difícil compreender a lógica do mundo.
Mas o código de que as duas meninas-moças gostavam, pelo que soube por meio da imprensa, é aquele que existe há seis mil anos, o das palavras. As meninas adoravam ler. Boas alunas na escola, tinham um futuro promissor. Pais que as amavam. Rachel (nove anos) havia tirado primeiro lugar num concurso de redação da biblioteca do Paraná. Seria escritora?
Difícil compreender a lógica do mundo.
segunda-feira, 10 de novembro de 2008
Memória (crônica)
O primeiro a me notar é o cão. Late da porta dos fundos da casa. Ao ter certeza de que sou eu quem chega, corre de um lado a outro, esbaforido.
– É um bobo, diz mamãe. – Nunca viu gente.
Abraço o cãozinho. Ele me deixa alegre.
Ela pergunta se quero café. Digo que não, já havia tomado em casa, antes de sair.
– Tudo bem? – Cumprimento com um beijo.
– É, vai indo. – Esqueço de tudo e sinto fraqueza nas pernas.
Gostaria de esquecer algumas coisas, penso. Convido: – Vamos olhar o jardim?
Busco a bengala. Começamos pelo canteiro que contorna a casa, na lateral esquerda. Ela se agacha para erguer a haste que sustenta uma dália exuberante. Pede que eu busque um barbante. Prende a flor ao bambu.
– Não achas linda? – pergunta.
– Sim, mãe, belíssima.
– Nunca mais vi a gata. Acho que a envenenaram também.
– Ela estava no parapeito da janela quando cheguei.
– Estava? Não lembro.
O cachorro pula alegre nos meus joelhos, faz festa.
– Os antúrios estão pedindo terra. Precisas me levar na floricultura para comprar barro.
– Claro, mãe, no sábado, quem sabe...
– Gostaria de comprar algumas mudas de verduras. As da outra vez não vingaram.
– Que pena!
– Os antúrios estão lindos, né! Queres levar alguns pra enfeitar tua casa?
– Não, mãe, obrigada, gosto de vê-los na natureza. Tem jabuticaba?
– Talvez.
– Veja só quem está deitada sob a árvore. Que lugar mais gostoso a Mimi escolheu.
– Sua porqueira, diz mamãe com carinho. E a enxota para que nós duas nos enfiássemos sob a árvore e comêssemos alguns frutos doces.
– Viste o jasmim? Carregado de botões. Teu pai adorava esta flor. Pediu que plantasse perto da janela do quarto. Disto eu me lembro bem. Mas outras coisas se apagam. Faz dias não vejo a gata. Acho que a mataram.
– Mãe, ela esteve agorinha aqui, sob a árvore.
– Esteve?
Noto uma tristeza aflita em seu rosto. Tento amenizar.
– Eu também não me lembro de tudo. Certas passagens da vida são brancas como as pétalas do jasmim. Às vezes é bom esquecer.
–Vamos sentar na varanda e ver o tempo passar, convido. - Na varanda o tempo passa mais devagar.
– Olha aquele casal de passarinho namorando no fio de luz.
– E aquela borboleta.
– E a rosa do amor. Preciso podá-la.
– Não, mãe, deixe-a assim, bela e selvagem.
– O portão precisa ser pintado.
– Deixe-o assim, é o registro do tempo sobre ele, uma espécie de memória.
O cão chega esbaforido e se deita no meio de nós. Desatamos a rir. Mais uma manhã para se guardar na memória.
In: Jornal A Notícia, Anexo, p. 3 (10/11/2008)
– É um bobo, diz mamãe. – Nunca viu gente.
Abraço o cãozinho. Ele me deixa alegre.
Ela pergunta se quero café. Digo que não, já havia tomado em casa, antes de sair.
– Tudo bem? – Cumprimento com um beijo.
– É, vai indo. – Esqueço de tudo e sinto fraqueza nas pernas.
Gostaria de esquecer algumas coisas, penso. Convido: – Vamos olhar o jardim?
Busco a bengala. Começamos pelo canteiro que contorna a casa, na lateral esquerda. Ela se agacha para erguer a haste que sustenta uma dália exuberante. Pede que eu busque um barbante. Prende a flor ao bambu.
– Não achas linda? – pergunta.
– Sim, mãe, belíssima.
– Nunca mais vi a gata. Acho que a envenenaram também.
– Ela estava no parapeito da janela quando cheguei.
– Estava? Não lembro.
O cachorro pula alegre nos meus joelhos, faz festa.
– Os antúrios estão pedindo terra. Precisas me levar na floricultura para comprar barro.
– Claro, mãe, no sábado, quem sabe...
– Gostaria de comprar algumas mudas de verduras. As da outra vez não vingaram.
– Que pena!
– Os antúrios estão lindos, né! Queres levar alguns pra enfeitar tua casa?
– Não, mãe, obrigada, gosto de vê-los na natureza. Tem jabuticaba?
– Talvez.
– Veja só quem está deitada sob a árvore. Que lugar mais gostoso a Mimi escolheu.
– Sua porqueira, diz mamãe com carinho. E a enxota para que nós duas nos enfiássemos sob a árvore e comêssemos alguns frutos doces.
– Viste o jasmim? Carregado de botões. Teu pai adorava esta flor. Pediu que plantasse perto da janela do quarto. Disto eu me lembro bem. Mas outras coisas se apagam. Faz dias não vejo a gata. Acho que a mataram.
– Mãe, ela esteve agorinha aqui, sob a árvore.
– Esteve?
Noto uma tristeza aflita em seu rosto. Tento amenizar.
– Eu também não me lembro de tudo. Certas passagens da vida são brancas como as pétalas do jasmim. Às vezes é bom esquecer.
–Vamos sentar na varanda e ver o tempo passar, convido. - Na varanda o tempo passa mais devagar.
– Olha aquele casal de passarinho namorando no fio de luz.
– E aquela borboleta.
– E a rosa do amor. Preciso podá-la.
– Não, mãe, deixe-a assim, bela e selvagem.
– O portão precisa ser pintado.
– Deixe-o assim, é o registro do tempo sobre ele, uma espécie de memória.
O cão chega esbaforido e se deita no meio de nós. Desatamos a rir. Mais uma manhã para se guardar na memória.
In: Jornal A Notícia, Anexo, p. 3 (10/11/2008)
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
Era uma vez (crônica)
Ganharam de presente um casal de filhotes de marreco (ou seria de pato?). Passaram a ser os mais bem-tratados do galinheiro. Afinal, antes os donos do local só criavam galinhas. Agora, estes dois bichos novos, com bicos e asas e cores diferentes, grasnando de um outro jeito.
Quem vive no sítio, sabe, de manhã cedo é hora de tratar os bichos. Claro que se o tratador tiver um olho poético poderá apreciar as águas do rio e o brilho do sol enquanto executa as tarefas. Morar no sítio já é uma poesia. Imagine nos tempos em que se passou esta história, que não é de mentiroso, pois aconteceu de verdade, com pessoas da minha ancestralidade que moravam no interior.
Interior é aquele lugar em que as pessoas moram longe umas das outras, onde as árvores não incomodam, nem as galinhas e nem os patos. No interior, o tempo passa de um outro jeito, o fogão queima lenha, o café é coado, as cucas são feitas em fornos de tijolos, o cachorro é vira-lata. Tem carroça, cavalos, bois e vaca. Interior que se preze tem leite fresco e morno. Grama a vontade e rosas na frente de casa.
Neste cenário, crescia o casal de marrecos. Os donos se admiravam da beleza daquelas duas aves. Mas todo mundo sabe, mais cedo ou mais tarde, qual o destino dos bichos, mesmo que no sítio. Talvez as aves soubessem, talvez não. Vendo-as passearem despreocupadamente e nadarem no pequeno lago instalado no terreiro, pensava-se que de nada sabiam, tranqüilas, belas, penas exuberantes, bicos arredondados, chamavam atenção de todos que passavam (poucos criavam patos naquela época, ao menos naquela redondeza).
Assim se passavam os dias, acordar e dormir, comer e nadar, nadar e andar, andar e voar pedacinhos, bater asas fortalecidas, afastar as galinhas como se fossem de menor importância, até o galo as temia, afinal, eram grandes aquelas aves, tinham um código próprio, criaram uma aura em torno de si, de maneira que viviam como bem queriam. Davam as cartas no galinheiro, apesar do galo.
Do jeito que me contam a história, não se sabe quem as viu primeiro, se a esposa ou o marido. Certo é que todos contam assim. Que mal clareou o dia, um deles viu da janela o casal de marrecos voando já numa altura impossível de “caçá-los”, na direção que o rio Itajaí-Mirim descia, ou seja, mais para o centro da cidade. Fugiram. Cercas não prendem asas.
Os donos ficaram estupefatos e tristes. Nutriam carinho por aqueles bichos, estavam acostumados. O marido selou o cavalo e tentou segui-los, mas foi despistado, havia nuvens e árvores e curvas e montanhas e tanta água e tanto rio.
Mas esta história não termina assim. Conta-se que os marrecos pousaram nas terras não sei de quem, onde havia um imenso banhado, com pequenos lagos. O dono não foi buscá-los. Entendeu o desejo de liberdade das aves. Dizem que vivem por lá. Felizes como nos contos de fadas.
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